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29 / Maio / 2020
‘A pandemia nos obriga a vivenciar uma série de perdas’, diz professor da UFMG

Leandro Malloy, que participa de estudo sobre os impactos da Covid-19 na saúde mental dos brasileiros, afirma que a doença é gatilho para novos diagnósticos, agravamento de quadros e recaídas

Mulher atravessa a Avenida Paulista em dia de pouco movimento em São Paulo: o próprio isolamento social gera mudanças na rotina que podem impactar a saúde mental. Imagem: Roberto Parizotti / Fotos Públicas / CC BY-NC 2.0

Atendimentos e morte, falta de profissionais e equipamentos, aumento de internações por doenças crônicas não monitoradas. Esses cenários resumem as chamadas três ondas da pandemia de Covid-19, doença que, até esta quarta-feira, dia 27, havia atingido 5,6 milhões de pessoas e provocado 356 mil mortes no mundo.

Mais silenciosa, mas não menos preocupante, uma quarta onda da pandemia também ameaça a humanidade. Trata-se dos traumas psicológicos e do aumento das doenças mentais, decorrentes de fatores como alteração de rotinas, projetos frustrados, perdas financeiras, isolamento social, risco de adoecimento e morte. São muitas mudanças em poucos meses. Como você está se adaptando a elas? A resposta a essa pergunta vai subsidiar pesquisa que pretende avaliar os impactos da pandemia de Covid-19 na saúde mental da população adulta brasileira.

Os voluntários precisam ter mais de 20 anos e preencher formulário on-line. Caso desejarem, poderão receber seu relatório e ser acompanhados, via e-mail, durante 18 meses.

A pesquisa, que tem caráter longitudinal, pretende sistematizar respostas de cinco mil voluntários. Estão sendo coletadas informações sobre qualidade de vida, sono, funcionalidade, vivência do estresse e outras variáveis relacionadas à saúde mental dos brasileiros. Durante dois anos, os pesquisadores pretendem verificar como essas variáveis serão alteradas em razão do tempo de exposição direta ou indireta à doença.

Segundo o professor Leandro Fernandes Malloy Diniz, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, presidente da Associação Brasileira de Impulsividade e Patologia Dual (ABIPD), cerca de 20% dos brasileiros sofrem de algum transtorno mental. “É uma parcela significativa da população que, muitas vezes, não chega a ter um diagnóstico correto em virtude de uma série de informações equivocadas e estigmatizantes que levam ao medo de buscar ajuda”, afirma.

Leandro Malloy é psicólogo e coordena a pesquisa ao lado da professora Débora Marques de Miranda, também da Faculdade de Medicina, e do presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo Silva. Em entrevista ao Portal UFMG, Leandro Malloy fala sobre o estudo e alerta para a necessidade de informar, desmitificar e identificar alvos de ação para combater os efeitos da quarta onda da pandemia.

Leandro Malloy:
Leandro Malloy: prevenção e intervenção precoce. Imagem: Acervo pessoal / Facebook

Como a pandemia da Covid-19 influencia a saúde mental e como o sistema de saúde está estruturado (ou não) para lidar com essa quarta onda?
Toda situação que provoca mudanças intensas e em grande velocidade na vida das pessoas tende a gerar enorme risco de impacto em saúde mental. No caso da Covid-19, fomos expostos a uma série de mudanças em nossas rotinas, além de um cenário de incerteza e risco para nossa saúde, atividades profissionais, econômicas etc. Somos bombardeados por notícias de todos os tipos, as quais muitas vezes alimentam posturas negacionistas e pouco saudáveis.

Fato é que, à medida que somos forçados a encarar uma série de mudanças, vivenciamos uma série de perdas, que envolvem alterações em pequenas rotinas, frustrações de projetos, pressão financeira, incerteza profissional, risco de adoecimento e morte tanto para nós quanto para parentes e amigos. Esse cenário pode potencializar danos à saúde mental de várias formas. Ele é gatilho para novos diagnósticos, para o agravamento de quadros de adoecimento em curso ou para recaídas/recidivas.

Qual o papel da medicação psiquiátrica e do acompanhamento psicológico de pacientes diagnosticados, mesmo que a distância, especialmente nesse contexto?
As iniciativas de prevenção e intervenção precoce são fundamentais. Para isso, as autoridades em saúde pública devem alertar a população sobre rotinas que possam minimizar a chance de um impacto maior sobre a saúde mental. A manutenção de hábitos relacionados à atividade física, cuidados com sono e alimentação, manutenção de contatos sociais por ambiente virtual, criação de uma rede de apoio são algumas medidas que podemos sugerir.

Que sinais indicam que precisamos buscar ajuda e quais serviços estão disponíveis?
Além da orientação, existem diversos serviços de atendimento às emergências psiquiátricas em hospitais públicos e privados. Recorrer ao profissional de saúde mental é fundamental quando são percebidos os primeiros sinais de impacto da angústia, sofrimento e preocupação com a funcionalidade e realização de atividades no dia a dia.

No Brasil, a saúde mental ainda é tabu ou causa de preconceito, seja no ambiente familiar ou no trabalho. Como a pesquisa Covid-19 e saúde mental: como você está se adaptando? pode contribuir para políticas públicas na área e quais são as expectativas em curto, médio e longos prazos em relação aos cuidados com profissionais de saúde e a população durante e após a pandemia?
Cerca de 20% das pessoas sofrem algum transtorno mental. É uma parcela significativa da população que, muitas vezes, não chega a ter um diagnóstico correto em virtude de uma série de informações equivocadas e estigmatizantes que levam ao medo de buscar ajuda.

Nesse momento, o sofrimento e o estresse ligados à incerteza e à necessidade de adaptação estão colocando um número imenso de pessoas em risco.

Informar, desmitificar e identificar alvos de ação pode ser um dos passos mais fundamentais para fornecer à população formas de manejo desses quadros. Nossa pesquisa pretende apresentar à comunidade científica, às autoridades na área de saúde e à população em geral os principais impactos da Covid-19 sobre sintomas como ansiedade, depressão, agressividade. Esses sintomas podem ser a base de uma série de prejuízos e disfunções de pessoas de diferentes idades.

Como o senhor avalia o papel das universidades, como a própria UFMG, que tem sua Rede de Saúde Mental, na proposição de políticas para o ensino, a pesquisa e a extensão?
As universidades são protagonistas no processo, já que seu objetivo é produzir conhecimento de qualidade, formar profissionais capacitados e oferecer à comunidade recursos e aplicações de excelência. Mais do que isso, ela estabelece ligações com os diferentes setores da sociedade para que tal produção seja extramural. É preciso compor o que chamamos na literatura de “políticas públicas influenciadas por evidências”, conceito que se refere à construção de políticas públicas fundamentadas em conhecimentos científicos.