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25 / jun / 2020
Pesquisa da Medicina vai propor ‘calculadora de risco’ para a Covid-19

Com dados fornecidos por hospitais, objetivo é validar escores para predição de forma grave da doença e mortalidade

Hospital de campanha em São Paulo: escores vão contribuir para planejamento de alocação de vagas. Imagem: Rovena Rosa / Agência Brasil

Redes de colaboração têm sido cada vez mais comuns no enfrentamento à pandemia da Covid-19 em todo o mundo. E é com base nessa ajuda mútua, com participação de hospitais de todo o país, que a professora da Faculdade de Medicina Milena Soriano Marcolino pretende desenvolver e validar escores prognósticos para subsidiar as equipes médicas com informações para predição de doença grave e de mortalidade de pacientes infectados pelo Sars-CoV-2.

Ainda sem vacina, medicamento de eficácia confirmada e com potencial para evoluir rapidamente para a forma grave, a Covid-19 já causou a morte de 477 mil pessoas – são mais de nove milhões de infectados no mundo, segundo números divulgados nesta terça-feira, 23 de junho, pela Organização Mundial de Saúde. Esse quadro exige dos profissionais de saúde velocidade e acurácia no encaminhamento dos pacientes.

O objetivo dos novos escores prognósticos é contribuir para que, logo nas primeiras 24 horas de admissão da pessoa infectada, as equipes de saúde possam predizer o risco de o paciente evoluir para doença grave, com necessidade de ventilação mecânica ou evolução para choque ou disfunção orgânica, que se caracteriza por situações de comprometimento do sistema respiratório com baixa oxigenação do sangue, mesmo com o uso de oxigênio, redução do número de plaquetas e alteração do estado de consciência, das funções dos rins e do fígado.

Com base nos estudos, as equipes poderão definir o nível de assistência e a necessidade de reavaliações mais frequentes dos pacientes e planejar a alocação de vagas nas UTIs. Espera-se ainda compreender melhor o impacto da Covid-19 no sistema cardiovascular dos doentes, com avaliação da prevalência de miocardite e arritmias cardíacas, e a eficiência das diferentes terapias utilizadas nesse cenário.

Dados específicos
Segundo Milena Marcolino, o que diferencia essa proposta dos escores já aplicados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) é “a utilização de dados clínicos laboratoriais e exames de imagem específicos de acometimento relacionado à Covid-19, antes mesmo de o paciente ter a disfunção orgânica que está presente nos escores utilizados em UTIs”. Esses dados de observação serão fornecidos pelos hospitais parceiros do projeto – 23, até o momento – e reunidos na plataforma eletrônica REDCap.

“Inicialmente, essas informações serão verificadas para que se saiba quais estão associadas com maior risco de doença grave e mortalidade e qual o risco associado a cada dado (seu peso) para aquele desfecho”, explica a professora. Com isso, será elaborado o escore, uma espécie de “calculadora de risco” que se vale das variáveis e dos pesos verificados na primeira etapa. Em seguida, outra amostra de pacientes é testada para verificar se a “calculadora” funciona para predizer os desfechos.

De acordo com a professora, também será possível testar se os escores habitualmente usados em UTIs são úteis para a Covid-19 e avaliar outros fatores associados a eles que possam aumentar a acurácia na predição dos desfechos.

Mais amostras e evidências
A participação dos hospitais das redes SUS, privada e filantrópica no projeto é fundamental, segundo Milena Marcolino. “Quanto maior a amostra de dados, mais chances as equipes de saúde terão de conhecer o perfil da doença no Brasil, inclusive no contexto da desigualdade social e ocorrência de outras doenças infecciosas, como dengue e Chagas, e gerar evidências científicas que sejam úteis à prática clínica”, explica.

Cada hospital participante pode indicar até três profissionais para a coleta dos dados, enviando solicitação para registrocovidufmg@gmail.com. Todas as publicações originadas do projeto colaborativo citarão os profissionais parceiros.

A coordenadora do projeto lembra que a Covid-19 é uma doença nova e que a produção de evidências é essencial para que profissionais de saúde e gestores possam oferecer a melhor assistência aos pacientes e informar a população de forma adequada. “Basear as decisões em evidências é essencial para evitar expor a população a riscos desnecessários. Além disso, possibilita melhor alocação de recursos em intervenções realmente efetivas”, conclui.

O projeto Escore prognóstico para predição de doença grave e mortalidade causada pelo vírus Sars-Cov-2 (Covid-19) é um dos dez da UFMG aprovados por programa da Fapemig que oferece apoio financeiro a ações emergenciais de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus. Estão sendo investidos R$ 1,98 milhão em 19 projetos de instituições de pesquisa do estado. Foram destinados R$ 105 mil à pesquisa coordenada pela professora Milena Soriano Marcolino. Os recursos serão aplicados em bolsas para viabilizar a participação de acadêmicos de Medicina e profissionais de saúde na coleta e monitoramento dos dados.