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08 / Maio / 2020
Especialistas apostam na confiança e na emoção para combater a desinformação

Em debate da Marcha pela Ciência, professores da UFMG e do Cefet-MG defenderam mais apoio às ações de extensão e reconhecimento da diversidade social

Leonardo Gabriel: sociedade não está acostumada a lidar com evidências, fonte de credibilidade da ciência. Imagem: Raphaella Dias / UFMG

“Os disseminadores da pseudociência têm sabido se conectar aos sentimentos das pessoas, apelando a emoções como o medo e o ódio. Nós, divulgadores da ciência, devemos construir emoção positiva para aproximar o conhecimento científico dos grupos sociais. Não basta evitar palavras difíceis ou simplificar conceitos, é preciso mostrar como funciona nosso trabalho e estabelecer relação de confiança com esses grupos” afirmou, na manhã de hoje, o professor Yurij Castelfranchi, do Departamento de Sociologia da UFMG, que integrou a primeira mesa da programação mineira da Marcha Virtual pela Ciência, que ocorre nesta quinta-feira, 7.

Com mediação da diretora de Divulgação Científica da UFMG, Débora D´Ávila Reis, a mesa contou ainda com a também professora da Universidade Valeria Raimundo (Comunicação Social) e o professor Leonardo Gabriel, do Cefet-MG.

Castelfranchi:
Castelfranchi: descolamento entre instituições e população. Imagem: Raphaella Dias / UFMG

Castelfranchi salientou que há muitos grupos produzindo excelente informação científica, mas é fundamental mostrar quem são os cientistas, o que eles fazem e por que se pode confiar nos resultados desse trabalho. “Devemos manter contato intenso, cotidiano, com as pessoas nas periferias e de baixa escolaridade. Mais de 80% da boa divulgação científica não chega a 10% dos brasileiros. Há um descolamento entre as instituições e parcela muito grande da população”, afirmou.

Ainda segundo o professor, que coordena especialização em divulgação científica iniciada este ano, na UFMG, falar, por exemplo, em “achatar a curva” da disseminação da Covid-19 não soa óbvio para pessoas que não têm esse tipo de letramento. “Meu apelo é que pensemos na contramão, escutando as demandas dos diversos grupos”, disse.

Impactos ‘estrondosos’
Leonardo Gabriel, que atua em divulgação na área da astronomia, lembrou que a ciência é caracterizada por conclusões fortemente sustentadas em evidências, o que lhe confere credibilidade, mas que a sociedade, em geral, não está acostumada a pensar e agir dessa forma. Ele citou o astrofísico e escritor americano Carl Sagan e seu elogio ao ceticismo: “se não estamos aptos a fazer perguntas, ficamos à mercê de charlatães”.

Para professor do Cefet-MG, podem ser “estrondosos” os impactos da ideia de que o aquecimento global ou o desmatamento da Amazônia são uma questão de opinião. “No caso do novo coronavírus, as consequências de narrativas que se chocam com a realidade são quase imediatas e extremamente graves”, afirmou.

Ao abordar a comunicação pública em situação de crise sanitária, Valeria Raimundo defendeu que os governos tenham consciência da necessidade de prestar contas e de buscar o engajamento da sociedade nas políticas públicas. “A comunicação pública da ciência é um direito de todas as camadas da população. A gestão dessa comunicação deve investir no diálogo com todos os setores e sujeitos, sempre com vistas a minimizar os impactos negativos desse quadro de pandemia”, disse ela, enfatizando que se trata de um projeto complexo diante da disputa intensa de discursos e interesses, crenças e valores, posições políticas e ideológicas.

“Os sujeitos políticos, numa democracia, reivindicam seus direitos ao acesso à informação científica e à participação no debate sobre políticas públicas. E a divulgação científica cria condições para a participação da sociedade, favorecendo todas as camadas e abrindo caminho para o engajamento. Mas é importante reconhecer a diversidade entre os diversos grupos sociais”, afirmou a professora da Fafich.

Outros saberes
Os debatedores exaltaram o trabalho de divulgação realizado nas escolas e outras ações de extensão. Débora Reis disse que a aproximação dos cientistas com a sociedade não acadêmica é “frutífera e saudável”. “Quando saímos de nossa bolha e dialogamos com as comunidades, constatamos as limitações da ciência e legitimamos outros saberes”, afirmou a professora do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, acrescentando que ainda há “um longo caminho” a ser trilhado pela extensão e pela divulgação científica.

Envolvido em ações nas escolas públicas com o Grupo de Estudo e Divulgação de Astronomia (Gedai), do Cefet-MG, Leonardo Gabriel defendeu a importância de interagir com professores e alunos do ensino básico e trabalhar com as comunidades, para conhecer a sua realidade. Mas ressalvou que iniciativas do gênero carecem de mais apoio e recursos. “A extensão precisa ser mais valorizada para estar em pé de igualdade com o ensino e a pesquisa. Isso fica ainda mais claro se pensamos nos impactos da desinformação quando enfrentamos uma pandemia.”

Valeria Raimundo destacou a importância da educação e da divulgação científica para o acesso e a leitura crítica das mídias, “capacitando os indivíduos para escolher seus caminhos”. Yurij Castelfranchi afirmou que as escolas têm papel central em projeto de construção de cultura científica, em médio e longo prazo. “Esse é o antídoto para a desinformação. E os professores do ensino básico são atores fundamentais, assim como, no caso da periferias e comunidades rurais, lideranças locais e movimentos sociais são cruciais”, disse. Para Castelfranchi, “faltam reconhecimento, políticas públicas e recursos, mas as instituições de Minas Gerais, como o Cefet e a UFMG, sabem o que fazer e estão no caminho certo”.

Débora:
Débora: longo caminho para a extensão e a divulgação científica. Imagem: Raphaella Dias / UFMG