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18 / ago / 2020
Ailton Krenak: ‘a ciência sempre existiu, assim como a escuridão que devemos atravessar’

Líder indígena fez palestra hoje, no ciclo Tempos Presentes; gravação do evento está disponível no YouTube

A observação de que a sociedade ocidental reivindica a ideia de ciência apenas para si contribuiu para dar o tom da conferência que o ambientalista e escritor Ailton Krenak ministrou na manhã desta segunda-feira, 17, como parte do ciclo Tempos Presentes, promovido pela UFMG. Krenak abordou o negacionismo que cresce, segundo ele, “em razão da saturação das relações humanas e do obscurantismo que está sendo abraçado como salvação de um mundo em crise”.

“A ciência sempre existiu. Assim como sempre houve a noite e o dia, sempre houve também o conhecimento, a busca desse conhecimento pelos seres e uma imensa escuridão que precisamos ser capazes de atravessar”, afirmou o pensador e líder indígena. Para Krenak, a ciência é tão antiga quanto os seres com diferentes linguagens, “que se propõem a fazer esse movimento de atravessar a escuridão para pensar e conhecer a humanidade”.

Ailton Krenak disse que, com a chegada da modernidade e das tecnologias, a ciência e o conhecimento foram colocados em “lugares secretos”, lugares de exclusividade. “Na virada do tempo, esse conhecimento passou a ser tratado quase como exclusividade dos cientistas. Um corpo de saberes e de pessoas selecionados tomou para si a voz da ciência e fez o trabalho de nos trazer a esse lugar que nós chamamos de modernidade”, criticou Krenak.

Ailton Krenak foi recebido por Sandra Almeida (abaixo), Claudia Mayorga (à esquerda) e Ana Gomes; no alto, à direita, o tradutor de Libras Juliano Salomon. Imagem: Raphaella Dias / UFMG

O ambientalista foi apresentado pela reitora da UFMG, Sandra Goulart Almeida, que ressaltou a importância das reflexões de Krenak sobre o “estar da humanidade no mundo”. “Ele tem uma fala de que eu gosto muito. Diz que este momento é como um anzol nos puxando para a consciência”, afirmou Sandra. O evento, que teve transmissão em Libras, contou também com a participação das professoras Cláudia Mayorga, pró-reitora de Extensão da UFMG, e Ana Gomes, da Faculdade de Educação (FaE), que enfatizou a importância de se manter aberto o diálogo da Universidade com as tradições e com o pensamento indígenas.

Ciência e tecnologia são irmãs
Krenak argumentou que a modernidade trouxe aportes tecnológicos que acabam sendo confundidos com a ciência – até mesmo, segundo ele, uma pode suprimir a existência da outra. “Elas são quase simultâneas. Ciência não é exatamente tecnologia. Ciência e tecnologia andam juntas, mas não são a mesma coisa. Com o advento da industrialização, a tecnologia disparou na frente da ciência e começou a governar o mundo que habitamos”, explicou.

De acordo com Ailton Krenak, essa distinção é importante, pois a ciência tem uma voz sensível à complexidade dos povos e da própria ecologia do planeta. “A tecnologia tem pressa de antecipar a ideia de progresso e futuro. A tecnologia é a ferramenta do tempo”, ele disse.

Para o pensador, o que vivenciamos atualmente é resultado de uma apropriação da tecnologia pela política, entendida esta última como estruturadora de paradigmas e eleitora de pensamentos de intervenção técnica do homem no mundo. “Ao invés de seguirmos uma trilha em que possamos conjugar ciência e tecnologia, nós vivemos hoje uma sabotagem da ciência e uma superapreciação dos recursos tecnológicos, a ponto de gastarmos bilhões para enviar sondas a Marte e negarmos recursos do mesmo volume para a distribuição e a expansão da base de produção da ciência aqui na terra.”

Segundo Ailton Krenak, a partir do momento em que as empresas se aproximaram da universidade, para fomentar pesquisas, as universidades passaram a se comprometer com a produção de respostas, aparatos e tecnologias para atender a uma demanda externa. “Essa demanda é a da sociedade da mercadoria, para usar a definição de Kopenawa Yanomami, não a da sociedade do conhecimento.”

Na conclusão de sua exposição, Ailton Krenak afirmou que “habitamos um tempo em que o Estado, os governos e as corporações negam a ciência, negam as evidências, dizem que as universidades são inúteis”. Isso tem origem, segundo ele, na disputa marcada pela “exacerbação da tecnologia, que só existe porque é apoiada no conhecimento científico, mas é usurpada pelo capital e transformada em ferramenta do capital”.

O Ciclo de Conferências Tempos Presentes é organizado pela UFMG como contribuição para a tarefa de pensar a Universidade e a nossa época. O objetivo é valorizar o conhecimento, a reflexão e o questionamento indispensáveis para a reconstrução da noção de História como tradução da vontade humana de orientar sua existência pela utopia de um futuro digno de ser sonhado. Mais informações estão disponíveis no site do ciclo.

A conferência de Ailton Krenak pode ser assistida no canal da Coordenadoria de Assuntos Comunitários (CAC) no YouTube.